
Foi na minha estréia nas Explosion Parties, numa noite Red Carpet (sem o tapete vermelho, mas com todo mundo elegante), que eu me lembrei do quanto eu fico indignada com algumas músicas brasileiras. O videokê foi o culpado. Em uma das rodadas musicais, depois de comer uma massa “DAQUI Ó” preparada pelo Cabeça (ex-colega de TV UFMG), selecionamos sem nenhuma pretensão uma certa música cuja letra era assim:
“No samba ela me diz que rala/ no samba eu já vi ela quebrar/ no samba ela gostou do rala-rala, me trocou pela garrafa, não ‘guentou’ e foi ralar/ vai ralando na boquinha da garrafa”
Foi uma gargalhada geral. Todos concordaram que essa letra era ridícula, não só pelos erros gramaticais (que nem percebemos na hora), mas pelo teor sexual da coisa. Claro que já havíamos notado isso antes, mas nessa hora, nós simplesmente paramos para refletir o absurdo que era falado na “maior inocência” há alguns anos.
Era com essa inocência que eu (e todas as minhas amigas) dançava na boquinha da garrafa, a dança do maxixe (“um homem no meio com duas mulheres fazendo sanduíche”), e até mesmo a do “pinto do meu pai que fugiu com a galinha da vizinha”.
Putz! Eu gostava da música do “põe-põe-põe me fazendo enlouquecer”! E sabia toda a coreografia da Melô do Tchan, que fala que “tudo que é perfeito a gente pega pelo braço, joga lá no meio, mete em cima, mete em baixo”, e o pior: “depois de nove meses você o resultado”. Incrível como durante muito tempo eu nunca tinha reparado nas letras, e nem na coreografia das músicas. Mas o que devemos esperar de crianças que assistem o concurso da loira e da morena do Tchan no Faustão?
Hoje eu sinto um quê de vergonha em relembrar isso e até dou certa razão pelo meu pai nunca ter me deixado dançar na frente dele (era o que ele podia fazer para me poupar). Eu treinava os passos das danças na casa da vizinha, que tinha os CDs mais completos. Não era culpa nossa, a gente nem entendia o que era falado. O pior é lembrar o Gugu Liberato levando uma menininha de uns 5 anos vestida de Carla Pérez para dançar. Isso sim é exploração.
Mas não era só o Axé que fazia essas letras bizarras. Os venerados Mamonas Assassinas zombavam da cara dos axezeiros, roqueiros, pagodeiros, usando tudo muito sexual e ninguém dava a mínima pra isso (até hoje nem reparam). Não faz muito tempo que eu finalmente entendi o sentido de “comer tatu é bom, que pena que dá dor nas costas/ porque o bicho é baixinho e é por isso que eu prefiro as cabritas”. Caramba, essa demorou mesmo! E eu fiquei impressionada DE NOVO!
Quando meu namorado, Fábio, leu para mim algumas músicas de um CD dos Raimundos que ele costumava ouvir quando adolescente, eu só não caí pra trás porque estava deitada. Essas estavam para competir com todas as de axé e podiam até ganhar!
E mesmo assim eles eram chamados com todo carinho de “os meninos do Raimundos” pelas patricinhas da Capricho. Será que elas também nunca tinham reparado em como eles falavam da mulher, ou a venda é muito mais importante do que fazer as adolescentes pensarem que “dar fora” nos pretendentes não é a única forma de se respeitar? Eu nunca tinha ouvindo mais de uma música deles inteira, mas depois de perceber as letras das outras, fiquei aliviada por isso. Quem fala de nós como sendo quase prostitutas não merece minha audiência.
Infelizmente, hoje a situação não está muito diferente. O que mudou foi só o estilo musical. Agora são os funks que tomaram conta. "Vai Serginho" e aquele outro do "67, patinete, abre as perna e a gente..." são, para mim, os piores de todos os famosos (não estou nem falando daqueles funks “proibidos” que parecem narrar filmes pornôs).
Ao contrário de quando eu tinha 7 anos, eu não danço mais essas músicas. Não por não gostar de dançar, mas pro protesto. Até danço funk, mas se começa com letras desse tipo, eu paro, como se não estivesse ouvindo nada e não houvesse motivo para dançar. Escolha minha. Talvez pelos meus pensamentos cada vez mais feministas (que abominam essas manifestações que colocam a mulher em uma posição de objeto sexual), talvez pela minha preferência por músicas que me fazem pensar. E se não me fazem pensar, que pelo menos não me dêem vergonha. Acho que amadureci.